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Recursos Humanos

- Publicada em 05 de Novembro de 2012

A TI na encruzilhada


STOCKPHOTO /DIVULGAÇÃO/JC

A falta de mão de obra qualificada para as áreas de Tecnologia da Informação (TI) e eletroeletrônica no Brasil é crítica, e quanto a isso não resta nenhuma dúvida. Se nada de efetivo for feito para reverter esse quadro, o déficit de pessoas no setor será tão impactante que fará com o que Brasil deixe de arrecadar R$ 115 bilhões até 2020, segundo projeções da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex).

Mas esse está longe de ser um problema impossível de ser resolvido. A criação de uma ação coordenada, envolvendo empresas, instituições de ensino e Poder Público, deveria ser o ponto de partida, sugerem especialistas. A solução passa por iniciativas como incentivar os mais jovens a perceberem as oportunidades nessa área e orientar as universidades e cursos técnicos a desenvolverem uma formação mais alinhada com as demandas do mercado. Entretanto, como esses processos geralmente exigem muita articulação política e demandam tempo, as empresas têm procurado encontrar as suas próprias saídas para essa encruzilhada.

Nesse cenário, algumas começam a investir na formação “dentro de casa”, criando universidades corporativas e modelos de capacitação que envolvem até mesmo o patrocínio de cursos no exterior. Outras optam por identificar mão de obra qualificada em regiões ainda não descobertas.

A gerente do Observatório Softex Virgínia Duarte comenta que o sistema nacional de ensino é muito distribuído, mas a indústria de software e serviços é concentrada. Assim, apesar do alto nível das universidades de alguns estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do País, as operações de TI em sua maioria estão presentes em alguns municípios do Sul e Sudeste.

É preciso garimpar melhor essas oportunidades. “A indústria de TI tem que começar a se distribuir territorialmente, buscando locais onde ainda existam profissionais que não estão sendo adequadamente usados porque aquele local não tem vocação forte para projetos de TI”, avalia.

Foi isso que fez o Grupo Meta IT. Um dos grandes players de TI do País e com pelo menos 300 vagas em aberto, a gaúcha foi para o Interior do Rio Grande do Sul buscar as pessoas de que precisa para crescer. O resultado disso é um investimento superior a R$ 5 milhões na construção de uma unidade na região do Recanto Maestro, próxima a Santa Maria. “Essa é uma área estratégica, pois fica próxima a vários municípios da região da Campanha e recebe jovens que vão estudar nas universidades locais”, comenta o vice-presidente administrativo e financeiro da Meta, Claudio Carrara. Mesmo que a opção para essa nova operação seja no Rio Grande do Sul, onde a disputa por pessoas qualificadas é acirrada, a empresa está apostando em uma região mais afastada da Região Metropolitana de Porto Alegre.

A Meta já atua no local em uma área alugada e com cerca de 12 profissionais. A previsão é de que o prédio próprio esteja finalizado em dezembro e que o start seja dado nos primeiros meses de 2013. A capacidade inicial será a de abrigar 200 pessoas, e o trabalho para o preenchimento das novas vagas começou. A Meta tem hoje 1,2 mil funcionários, sendo 40% deles na região Sul e 60% na Sudeste. A sua sede está no Tecnosinos, em São Leopoldo.

Outra estratégia adotada pela Meta IT tem sido a de sensibilizar os jovens para essa profissão antes mesmo de eles entrarem na faculdade, quando já estão com a escolha feita. “Temos feito um trabalho de aproximação com as escolas para mostrar de forma prática o que é a TI no dia a dia e as oportunidades que eles terão para se inserir nesse mercado”, acrescenta o executivo.

Virgínia comenta que iniciativas como essas são fundamentais porque o número de pessoas interessadas em disciplinas da área de tecnologia é muito baixo no País. Isso acontece, muitas vezes, pela falta de conhecimento e pela própria característica do curso, que exige aptidões de lógica e matemática. “É preciso fazer propaganda sobre a importância da TI, atrair mulheres para essa área e sensibilizar pessoas que planejam fazer outros cursos, como os de Administração”, sugere.

Altus prepara especialistas para mercado de petróleo e gás


Gerbase investe em capital intelectual para promover o crescimento da empresa. FREDY VIEIRA/JC

Outra iniciativa do setor eletroeletrônico gaúcho é a da Altus, que lançou a Academia Altus, programa de qualificação de recursos humanos que busca minimizar as consequências do apagão de mão de obra no setor de automação industrial e petróleo no Brasil.

A iniciativa visa a formar profissionais nas áreas de gestão e técnicas de automação de processos. O programa se baseia em parcerias com instituições de ensino e treinamentos realizados internamente para o desenvolvimento das competências profissionais, técnicas, gerenciais e comportamentais consideradas essenciais para a viabilização da sua estratégia. “Vamos dar a oportunidade de desenvolvimento profissional, promover a capacitação do nosso capital intelectual, e, consequentemente, apoiar o crescimento da empresa”, diz o presidente da Altus, Luiz Gerbase.

De acordo com o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), no Brasil há um déficit de 20 mil engenheiros por ano. Número que deve aumentar com a demanda dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Programa Minha Casa, Minha Vida, além da exploração de petróleo na camada pré-sal, da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

A Academia Altus estreou com um curso de pós-graduação em parceria com a Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. A especialização em Automação e Controle tem como objetivo promover a qualificação de profissionais da área de engenharia para atuarem no campo da automação industrial, de modo que possam projetar, implantar e operar sistemas de controle e processos, capacitando-os para atuarem em equipes multidisciplinares.

O curso é voltado para graduados, preferencialmente em cursos da área de engenharia, e que estejam atuando no mercado de automação industrial. “O profissional será preparado para atuar na cadeia de petróleo e gás, um dos setores que mais sofre com a escassez de pessoas qualificadas atualmente”, destaca Gerbase. A Altus participou de toda a concepção da grade curricular do curso, que conta com professores da empresa.

Investimentos em cursos profissionalizantes é alternativa


Com crescimento anual superior a 12%, o setor de TI brasileiro deve chegar a 2014 com um déficit de 800 mil pessoas, projeta a Fundação Getulio Vargas (FGV). Apesar disso, o País não deve sair desesperadamente formando pessoas, pensando apenas na quantidade e esquecendo a qualidade, diz a gerente do Observatório Softex, Virgínia Duarte. Se fizer isso, tudo indica que o País entrará em uma rota ainda mais perigosa. “Se olharmos apenas para esse indicador, teríamos que formar um número absurdo de pessoas para conseguirmos filtrar aqueles com condições de serem contratados”, alerta.

Uma saída mais imediata, comenta, poderia ser a de investir mais nos cursos de nível profissionalizante, que são mais rápidos e que poderiam atender a pelo menos parte das demandas das contratantes. Pensando na qualidade, também será preciso segurar a ansiedade das empresas. Muitas vezes, na pressa de preencher os postos abertos, os gestores buscam nas universidades os jovens que, diante de uma boa proposta e com dificuldade de conciliar os estudos com a promissora carreira, abandonam a universidade. Como resultado disso, ficam com uma formação deficitária.

Encontrar esse ponto de equilíbrio, de fato, não é fácil. E como os outros países estão tentando resolver essa situação, já que a falta de talentos suficientes na TI e no setor de eletroeletrônica é um problema globalizado? A especialista comenta que o Canadá, por exemplo, tem facilidades legais para a importação de pessoas. E, dessa forma, as companhias têm conseguido atender às demandas das suas empresas.

Já os Estados Unidos aposta cada vez mais no recrutamento de recursos humanos em outros países, como o Brasil. Na prática, os profissionais passam a trabalhar remotamente para grandes empresas. “São contratações, na maioria dos casos, fora da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), mas os jovens recebem em dólar e costumam se interessar por essas propostas”, comenta.

Outro caminho adotado pelos grandes players internacionais para resolver esse problema é também o mais criticado pelas empresas locais, geralmente de menor porte e mais afetadas com essa concorrência. “Algumas companhias instalam aqui seus centros de desenvolvimento, mas nem sempre isso significa que estão interessadas em criar qualquer tipo de interação mais aprofundada com o meio. Ou seja, atendem apenas às necessidades por sistemas da matriz e não trazem inteligência para o País”, diz.

Datacom aposta na formação de novas lideranças


Félix dos Santos Jr comemora parceria com a Unisinos que criou MBA. GILMAR LUÍS/JC

De olho no incremento dos negócios projetado para os próximos anos, a Datacom, um dos principais fabricantes nacionais de equipamentos de telecomunicações, decidiu preparar “dentro de casa” os seus profissionais. Para isso, a empresa aposta, desde o ano passado, na Universidade Corporativa Datacom, focada em capacitações em gestão e liderança. “Essa iniciativa será o pano de fundo de vários investimentos que vamos fazer em formação, dos nossos profissionais ao longo do tempo”, comenta o gerente de RH da Datacom, Felix dos Santos Jr.

Para levar adiante o projeto, a empresa fechou parceria com a Unisinos, universidade que, segundo o gestor, foi a que demonstrou maior flexibilidade para atender às demandas da empresa e fazer os processos de customização necessários.

O pontapé inicial foi dado com o MBA de Gestão e Liderança, voltado para a formação de novos gestores e com 420 horas de duração, sendo 60% delas presenciais e 40% a distância. As aulas acontecem na sede de Porto Alegre da Unisinos. O MBA foi desenvolvido exclusivamente para os funcionários da Datacom e criado de forma conjunta pelos gestores da Datacom e o Programa de Pós-Graduação da instituição de ensino. O outro curso é o de Atualização em Gestão, voltado para os profissionais que já exercem essas funções há algum tempo. “Precisamos ter um corpo gerencial capacitado para suportar o crescimento e os novos desafios. A nossa motivação é ser uma empresa que cresce e gera oportunidades”, diz o presidente da empresa, Antonio Carlos Pôrto.

As aulas começaram em março e são 67 pessoas participantes nos dois cursos, entre profissionais de Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. As aulas são quinzenais, à noite e aos sábados. A ideia é que todos os cerca de 80 profissionais da área de gestão da empresa passem por esses cursos. E desenvolver com o tempo capacitações técnicas.

A Datacom tem hoje cerca de 800 colaboradores e cerca de 40 vagas abertas para profissionais das áreas técnicas e operacionais. “Esse cenário nos preocupa porque podemos estar perdendo oportunidades por não termos gente capacitada para todos os desafios que temos pela frente”, observa Félix dos Santos.

Falta de pessoas inflaciona salários


A pesquisa Estudo de Remuneração 2012/2013, feita pela empresa de recrutamento Page Personnel, comprova que as empresas estão gastando cada vez mais para contratar ou reter seus talentos. É o resultado direto de um mercado cujos salários estão inflacionados.

Realizado em julho deste ano, o levantamento contou com dados dos rendimentos de 30 mil candidatos de 20 a 30 anos de São Paulo, Rio de Janeiro e interior paulista. E constatou que o setor de TI foi o que apresentou o cargo com maior aumento percentual na remuneração.

O salário de um administrador de banco de dados júnior em São Paulo, por exemplo, saltou de R$ 2,5 mil, no ano passado, para R$ 4,7 mil neste ano, um aumento de 88%. Já os ganhos de um desenvolvedor/programador também passaram de R$ 6,7 mil, em 2011, para R$ 7,5 mil em 2012. “Caiu a ficha dos profissionais de tecnologia que eles são profissionais raros, e isso fez com que eles se supervalorizassem”, avalia o gerente da divisão de TI da Page Personnel, Diego Rondon.

Isso tem gerado algumas distorções no mercado, alerta. Apesar de extremamente demandados, são poucos os profissionais realmente capacitados para muitos desses cargos. Hoje, um profissional com cerca de seis meses de experiência já se valoriza como se fosse profissional pleno. E declina até mesmo propostas consideradas pelo mercado como muito atraentes.

Como consequência disso, as empresas deixam de promover os profissionais apenas por meritocracia. Se estão com vagas em aberto para um coordenador, acabam tendo que aceitar pessoas mesmo com menos experiência. Nessa linha, outra situação comum é contratar recursos humanos, mesmo sem o conhecimento técnico necessário, mas porque dominam o idioma inglês ou espanhol.

Um dos resultados mais diretos dessa demanda desenfreada por pessoas é a alta rotatividade. “Antes os profissionais se movimentavam de uma empresa para outra atraídos por novos projetos. Hoje, eles não admitem mais fazer transição lateral, só com aumento salarial”, comenta Rondon. Segundo ele, a alavancagem média exigida para a troca hoje varia de 10% a 20%.

É uma realidade que causa estranheza, inclusive, em empresas europeias. Ele lembra do caso de uma startup portuguesa, cliente da Page Personnel, que queria vir para o Brasil, e solicitou um estudo de remuneração. Apesar de perceberem que os preços estavam inflacionados, aceitaram. Mas, na hora de chamar os profissionais, se depararam com essa necessidade de fazer uma proposta ainda maior.

Para manter um time de profissionais qualificados e envolvidos com a empresa, o Grupo Processor investe tempo e recursos na formação e motivação das pessoas. Na hora de contratar, como é muito difícil encontrar um profissional pronto, os gestores procuram identificar pessoas com capacidade de se desenvolverem rapidamente. “Dessa forma, mesmo que o colaborador não tenha o nível de capacitação exigido, conseguimos treiná-lo internamente e prepará-los dentro do nosso padrão de qualidade”, diz a gerente de recursos humanos do Grupo Processor, Ana Cláudia Machado.

A empresa também possui uma série de ações internas para reter os seus talentos, através de programas motivacionais, possibilidades de crescimento dentro da empresa e capacitações até mesmo fora do Brasil. O grupo de gestores de negócios também apoia as ações de formação. “Temos profissionais muito experientes e criamos uma espécie de escola interna, onde o conhecimento é transmitido para os mais jovens”, relata.