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Hélio Nascimento

- Publicada em 06 de Novembro de 2009

Os castigos do tempo

O realizador deste Alô, Alô, Terezinha!, Nelson Hoineff, tem suficiente experiência na televisão para tentar, nos últimos anos, deixar sua contribuição a um gênero, o documentário, no qual a cinematografia brasileira tem alcançado recentemente exemplos significativos. Seu filme sobre Abelardo Barbosa não é o primeiro a ser realizado e pensado para a tela maior e insuperável do cinema. Dele já havia sido exibido O Homem Pode Voar, sobre Santos Dumont. O filme que agora estamos vendo é o segundo de uma filmografia que parece dirigida para a focalização de figuras célebres brasileiras. Com Alô, Alô, Terezinha!, Hoineff recebeu dois prêmios no festival de Recife: o de melhor filme do júri oficial e o de melhor filme do júri popular. Ele já tem pronto – e esperando lançamento – outro documentário, Caro Francis, dedicado ao jornalista Paulo Francis, que merecia realmente ser chamado de polêmico, não apenas por incentivar e provocar discussões, mas por ter a coragem de expor publicamente opiniões quase sempre fora das ingenuidades do chamado politicamente correto. No festival de Paulínia, o filme sobre Francis recebeu o prêmio de melhor documentário, conferido pelo júri popular. Hoineff promete para breve mais dois documentários; um sobre Cauby Peixoto, Começaria Tudo Outra Vez, e outro dedicado a Nilo Machado, cineasta que trabalhou na área da pornochanchada, um dos subprodutos criados pela censura do regime autoritário imposto a partir de l964.

Chacrinha, como era o conhecido o personagem de Alô, Alô, Terezinha!, subverteu um gênero que, primeiro no rádio e depois na televisão, colocava em cena apresentadores de programas como Paulo Gracindo, Manuel Barcellos, César de Alencar e Ari Barroso. O primeiro transformou-se, mais tarde, num dos maiores atores do teatro e do cinema brasileiros e o último, autor de momentos antológicos da música brasileira, também se dedicava à transmissão de jogos de futebol, durante as quais nunca escondeu seu amor pelo Flamengo. Era, por assim dizer, politicamente incorreto. Nunca gritava a palavra gol, mas utilizava em tal momento um tema musical que executava num instrumento. Quando seu clube do coração conseguia marcar, Barroso tecia variações sobre aquele tema, quando então o compositor prestava auxílio ao narrador. De certa forma, Chacrinha é um seguidor de Barroso, pois este igualmente não se detinha diante do politicamente correto e costumava expor as deficiências dos que, em busca da glória, desfilavam, como calouros, em seu programa.

Em seu filme, Hoineff procura mostrar, mais do que o estilo de Chacrinha, os castigos que o tempo costuma impor. O objetivo maior parece ter sido as chamadas chacretes, vistas em seu esplendor e também em 2007, quando aquele escultor já deixou a marca de seu trabalho. Perde, é verdade, algum tempo com indagações sobre a vida particular de algumas delas, mas na maior parte do seu trabalho acentua toda uma realidade que é muito maior do que a glória efêmera proporcionada por um programa de televisão. Não estamos aqui diante da dignidade das rugas, mas de um espetáculo felliniano. Porém, o filme não se limita a expor o retrato atual das dançarinas de Chacrinha. Há também os que tentaram ser cantores e foram fulminados pela implacável buzina, trabalhada com um prazer sádico que o filme faz questão de ressaltar. Não se trata apenas de castigar um desafinado, mas de trazê-lo à realidade. Parece que o comandante do programa está tentando fazer com que pobres criaturas tomem consciência da realidade que vivem. Há uma certa maldade nisso. Mas o humor tem esse lado, impulsionado por uma agressividade que o politicamente correto tenta sem sucesso deter. Talvez seja este o aspecto mais importante do trabalho de Abelardo Barbosa. Seu programa não procurava esconder fatos dolorosos do subdesenvolvimento. O apresentador certamente não pensou nisso. Mas quando resolveu criar a figura de um palhaço irreverente e disposto a quebrar regras era a tal ponto que ele, inevitavelmente, chegaria.